Um dia de mendigo

Por Ana Creusa

Final da década de 1950. Era festejo do glorioso São Sebastião. Igreja lotada. O padre Edmundo de frente para a cruz do altar e de costas para os fiéis, celebrava a Santa Missa em latim.

Terminada a missa. O pároco desceu do altar, reuniu os padrinhos e madrinhas em um círculo, para dar as instruções sobre o concorrido Batizado.

Desde à entrada na igreja, ninguém conseguia tirar os olhos da esposa do famoso advogado Joaquim. Ela estava vestida em um tubinho escarlate que, além de curto, deixava à mostra os fartos seios.

O santo padre não teve como ignorar a situação. Voltou-se ao marido, que estava muito bem trajado, de terno e gravata, então, poderia resolver o problema. Pediu-lhe gentilmente.

– Empreste seu paletó à sua esposa, para que eu possa dar seguimento ao Batizado.

O advogado fez ouvido de mercador. Continuava ereto, na sua pose de sempre.

– Cubra sua esposa com seu paletó, Doutor! Ordenou o padre.

Os presentes imaginaram que o orgulho do advogado seria a causa da recusa de se despir do apetrecho que fazia parte do seu costumeiro traje.

O advogado ainda pensou se aquela seria a melhor saída, ou se simulava alguma desculpa, típica do teatro do Tribunal do Júri.

Sem outra saída possível, o Dr. Joaquim resolveu obedecer ao padre e retirou seu paletó, bem devagarinho, com gestos indecisos.

Sob a admiração de todos, o advogado deixou à mostra uma camisa toda rasgada, que lhe sobravam apenas o colarinho, que segurava uma gravata de seda, e os punhos que ficavam à mostra quando levantava os braços.

A situação era constrangedora! Todos viram os farrapos que estavam sob aquele paletó de linho belga, vestido pelo rico advogado. Na ocasião, suas vestes imitavam ao de um mendigo, sem que tivesse a mesma humildade.

Os muitos afilhados ficaram órfãos das bênçãos do padrinho, pois o famoso advogado nunca mais pisou no município.

História passada de pai para filhos, por José dos Santos, patrono da Cadeira nº 24 da ALCAP.

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