Na manhã ensolarada do dia 28 de março de 2026, o Povoado Santana foi palco de um momento histórico e profundamente emocionante promovido pela Academia de Letras, Ciências e Artes Perimiriense (ALCAP). Durante a edição do projeto “ALCAP em Movimento”, a instituição quebrou paradigmas e levou a literatura para onde ela verdadeiramente floresce: o seio da comunidade.
Em uma ação inédita, que rompe com o costume secular das academias literárias de realizar o Elogio de Patrono restrito às paredes de um auditório fechado, a acadêmica Maria Nasaré Silva declamou o tributo a José Mariano da Silva, Patrono da Cadeira nº 15, ao ar livre. A homenagem aconteceu exatamente no chão onde o homenageado viveu, plantou suas raízes e serviu à sua gente com zelo e dedicação. A seguir, convidamos o leitor a mergulhar nas palavras deste sensível Memorial Poético, que eterniza a trajetória de um homem de fé, trabalho e amor ao próximo.
José Mariano da Silva
Patrono da Cadeira nº 15 da Academia de Letras, Ciências e Artes Perimiriense – ALCAP
Por Maria Nasaré Silva
Epígrafe
Algumas vidas passam como o vento.
Outras permanecem como raízes.Há homens que apenas vivem.
E há aqueles que deixam caminhos.José Mariano da Silva
foi um homem que deixou caminhos.Memorial Poético
Em um tempo em que as manhãs
nasciam sobre os campos de Peri-Mirim
com o cheiro da terra molhada
e o canto distante dos pássaros,nasceu um menino, caçula, por sinal,
no povoado São Raimundo.Era 9 de julho de 1929.
Filho de Claudino Hermógenes da Silva
e Rosa Soares Silva,
cresceu entre a simplicidade da roça,
os ensinamentos da família
e a fé silenciosa
que sustentava a vida das comunidades.Ali, naquele pedaço de chão
onde o horizonte parece maior
e os caminhos são feitos de poeira e esperança,
começou a história de um homem
que aprenderia cedo
o valor do trabalho
e o sentido da solidariedade.José Mariano da Silva
cresceu como crescem as árvores fortes:
com raízes profundas.Aprendeu que viver
é cuidar da terra,
respeitar os mais velhos,
estender a mão a quem precisa
e confiar em Deus.O tempo passou.
E o menino tornou-se homem.
Em 1953, uniu sua vida
à de Maria Amélia Nunes,
companheira de jornada,
de desafios
e de sonhos.Juntos construíram um lar
onde o amor era abrigo
e a fé era fundamento.Desse amor nasceram filhos,
vozes que prolongaram sua história,
rostos que carregaram sua esperança,
vidas que cresceram sob seu exemplo.Cada filho era uma promessa
de continuidade,
uma semente plantada
no jardim da família.Mas José Silva –
como era carinhosamente chamado –
não pertenceu apenas ao seu lar.Pertenceu também à sua gente.
Foi lavrador,
homem que conhecia a linguagem da terra.Sabia o tempo de plantar
e o tempo de esperar.Sabia que a colheita
é sempre fruto da paciência.Foi catequista,
semeador da palavra
nos corações das crianças
e na fé dos adultos.Foi membro da Legião de Maria,
ministro da Eucaristia,
líder comunitário.Onde havia uma necessidade,
ali estava ele.Onde havia uma comunidade buscando orientação,
ali estavam suas palavras.Seu nome tornou-se presença constante
nos caminhos da fé
e da vida comunitária.Em 1970 partiu para Guimarães
em busca de formação teológica.Foram meses de distância,
meses de saudade,
meses de aprendizado.Visitou sua família apenas duas vezes.
Mas a esperança sustentava sua caminhada.
Enquanto isso,
Maria Amélia permanecia firme.Cuidava dos filhos,
da casa
e da vida cotidiana.Com coragem silenciosa,
mantinha acesa
a chama do lar.E assim, juntos –
mesmo separados pela distância –
continuavam construindo
a mesma história.José Silva voltou.
Voltou mais preparado,
mais consciente de sua missão,
mais comprometido com sua comunidade.Porque aprender, para ele,
era uma forma de servir melhor.E o tempo não diminuiu
seu desejo de aprender.Quando muitos já pensam em descansar,
ele decidiu estudar novamente.Já próximo dos sessenta anos,
caminhava à noite
da comunidade de Santana
até a sede de Peri-Mirim
para cursar o Magistério
no Colégio Cenecista Agripino Marques.Ao seu lado caminhavam
Maria Amélia,
amigos como o Sr. Pitota
e Dona Vitória.Passos firmes
atravessando a noite.Passos guiados pela vontade
de continuar crescendo.Porque quem acredita no conhecimento
nunca envelhece por dentro.Mas a vida também conhece
os dias de silêncio.Quando Maria Amélia partiu,
um vazio profundo
visitou sua casa.Era a ausência
de quem havia caminhado ao seu lado
por tantos anos.Mas a fé que sempre o sustentou
não o deixou cair.Continuou sua missão.
Celebrava cultos dominicais,
orientava comunidades,
levava palavras de esperança
a quem precisava.Porque sua vida
sempre foi serviço.Mais tarde, o destino lhe ofereceu
uma nova oportunidade de família.E dessa união nasceram três filhos.
Ainda muito jovens,
conheceriam a saudade.Porque o tempo,
que escreve todas as histórias,
também sabe quando encerrá-las.No dia 26 de janeiro de 2007,
José Mariano da Silva partiu.Partiu sem alarde,
como partem os homens simples.Partiu deixando atrás de si
uma vida inteira de exemplos.Mas homens assim
não desaparecem.Eles permanecem
na fé das famílias,
na esperança das comunidades
e na lembrança agradecida de todos
que aprenderam com seu exemplo.Epílogo Memorial
Há vidas que passam pelo mundo
como um sopro leve.E há vidas que permanecem
como raízes profundas na memória de um povo.José Mariano da Silva
foi uma dessas presenças.Homem de fé,
de trabalho silencioso
e de dedicação ao próximo.Seu caminho foi feito
de gestos simples
que, juntos,
construíram uma grande história.Hoje, o tempo segue adiante.
Novas gerações caminham
pelas mesmas estradas de Peri-Mirim.Mas algumas presenças
continuam caminhando conosco.Assim permanece José Mariano da Silva:
na memória das famílias,
na história de sua comunidade,
e na gratidão daqueles
que reconhecem
a grandeza de uma vida dedicada ao bem.Porque a verdadeira grandeza
não termina com a vida.Ela se transforma em legado🌿
O Elogio ao Patrono declamado pela acadêmica Maria Nasaré Silva, sob o céu aberto do Povoado Santana, transcende a mera formalidade institucional; é um ato de devolução e pertencimento. Ao tirar a cerimônia dos salões tradicionais e levá-la para o coração da comunidade, o projeto “ALCAP em Movimento” reverenciou de forma autêntica a memória de José Mariano da Silva, aproximando a Academia do povo que inspira e sustenta as suas letras.
E a própria natureza pareceu abençoar o ineditismo dessa ação. Na Baixada Maranhense, a chuva é celebrada como sinônimo de vida, a força generosa que enche os campos e traz abundância e prosperidade. Como se o Universo concedesse uma trégua luminosa, a manhã se manteve ensolarada durante toda a solenidade, permitindo que a homenagem acontecesse em sua plenitude. Logo após o encerramento, no entanto, os céus se abriram e choveu aos cântaros.
Essa água abençoada chegou como um prêmio e um verdadeiro batismo, regando a muda de pau-brasil plantada naquele mesmo solo em honra ao patrono. Homens de raízes profundas, como o eterno “José Silva”, merecem ser celebrados no palco de suas próprias vidas. E assim como a árvore recém-plantada crescerá alimentada pelas águas da Baixada, a memória de José Mariano continuará viva e forte, mostrando que a verdadeira grandeza não termina com a vida; ela se transforma em semente, raiz e legado.🌿
