
Nas margens das lembranças mais bonitas de Canaranas, vive a história de um homem simples, trabalhador e profundamente ligado à sua terra e à sua gente. Domingos Martins Nunes, carinhosamente conhecido por todos como Duro, nasceu no povoado Enseada Santo Antônio, atual Canaranas, município de Peri Mirim, em 20 de junho de 1952. Filho de José Evaristo Amorim Nunes e Antônia Paula Martins Nunes, cresceu cercado pelos ensinamentos da família, pela força do trabalho e pelos valores que carregaria por toda a vida. Ao lado dos irmãos Raimundo Martins Nunes, o querido Sipreto, Ana Luíza Nunes Martins e Raimundo Gabriel Amorim, viveu uma infância marcada pela simplicidade e pelas experiências que moldaram seu caráter. Frequentou a escola até a 3ª série do ensino fundamental, tendo como professora Nazaré Serra Maia. Contudo, a necessidade e o compromisso com a família falaram mais alto. Ainda muito jovem, deixou os estudos para ajudar os pais na lavoura, dedicando seus dias ao cultivo da mandioca, do milho, do feijão e do arroz.
Uma das maiores alegrias daqueles tempos eram as viagens para o Tremedal, terra de sua avó paterna, Maria Amorim Nunes. Ali, entre roçados e encontros familiares, fortaleciam-se os laços com a família Gomes, os conhecidos “Tebas”. Foram anos de convivência, amizade e união que permanecem vivos na memória de todos que compartilharam aqueles momentos.
O destino lhe reservou também a felicidade de construir sua própria família. Em 10 de janeiro de 1973, uniu sua vida à de Maria Vitória Pereira Nunes. Dessa união nasceram seis filhos: Rosângela, Dourinelson, Dulcilene, Amilton, Dourilene e Deleone. Com o passar dos anos, a família cresceu e se multiplicou, transformando-se em um verdadeiro legado de amor que hoje inclui 15 netos e 12 bisnetos.
Mas Domingos não era apenas homem da terra. Herdou de seu pai, Zé Grande e de seu avô Cacáte, a habilidade de confeccionar tarrafas e socós. Aprendeu também a consertar bolas, chuteiras e calçados, uma necessidade que surgiu da paixão pelo futebol e das dificuldades encontradas nos campos da época. Foi então que guardou para sempre uma frase de seu pai, que se transformaria em uma lição para toda a vida:
“De tudo temos que aprender, porque não sabemos o que o futuro nos espera.”
Essa sabedoria o acompanhou em cada etapa de sua trajetória.
O apelido que o tornaria conhecido por toda a região surgiu ainda nos tempos de jogador. Sua tia e madrinha, Tereza Martins Melo, torcedora apaixonada, vibrava nas partidas e dizia orgulhosa que seu sobrinho era duro na queda. O apelido ficou. E o nome Domingos passou a dividir espaço com o carinhoso e respeitado Duro.
Aos 19 anos, iniciou sua caminhada no futebol. Rapidamente se destacou pela habilidade, determinação e espírito competitivo. Quando fala dessa época, os olhos se enchem de lágrimas e saudade. Foram anos de conquistas, amizades e histórias inesquecíveis. Duro não foi apenas jogador; foi um dos grandes nomes do futebol amador da região.
Seu amor pelo esporte o levou a fundar, em 1976, o Vasco Esporte Clube dos Canaranas, ao lado de seu cunhado Valeriano Pereira, o Valico, e de Juarez Diniz. O time se tornou um orgulho para a comunidade. Jogadores de localidades vizinhas, como São Bento e Palmeirândia, enfrentavam longas viagens de canoa para participar das partidas. Cada jogo era uma festa, um acontecimento aguardado por todos. O time era composto por: Totó, Luís Carlos, Beto, João Carlos, Pindura, Boi de São Bento, Roque de Palmeirandia, Sipreto, Velho, Antônio Suca, Antônio Rosa, Ferrolho de São Bento, Santana de Zé Preto, Baró, Zé de Idália, Amaral de São Bento, Piquita de Bola, Gilmar de Palmeirandia, Antônio Neto e Nhogo.
A casa de Duro tornou-se ponto de encontro dos atletas, torcedores e amigos. Era um lugar sempre cheio de vida, de conversas animadas e de histórias que atravessaram gerações. Ao recordar aqueles dias, ele sorri emocionado, como quem revive os melhores capítulos da própria vida.
Em 1978, juntamente com seu irmão Sipreto, decidiu mudar o nome do time para Serraria Esporte Clube, em homenagem à serraria administrada pelo irmão, que naquela época representava prosperidade e desenvolvimento para a família.
Ao longo dos anos, também vestiu as camisas do Portinho e do Centrinho, participando de importantes torneios em Bequimão. Como atacante, conquistou respeito e admiração por onde passou. Os torcedores vibravam com suas jogadas, e seu nome ficou marcado entre os melhores atletas daquela geração. Foi no convívio com o tradicional Flamengo Esporte Clube do Portinho que nasceu outra paixão que o acompanharia por toda a vida. Embora tivesse fundado o Vasco Esporte Clube dos Canaranas, Duro criou uma forte ligação afetiva com o Flamengo. A convivência com os jogadores, as partidas memoráveis e a energia contagiante da torcida fizeram com que o clube rubro-negro conquistasse seu coração. Desde então, tornou-se um torcedor fervoroso do Flamengo, acompanhando o time com o mesmo entusiasmo que demonstrava nos campos de futebol, carregando essa paixão como parte inseparável de sua história. Um dos episódios que mais o emocionam aconteceu quando seu tio José Pereira Martins, o famoso Zé Coreiro, veio buscá-lo para servir ao Exército. Duro estava pronto para partir, cheio de esperança e entusiasmo. Mas sua mãe, movida pelo amor e pelo receio da distância, não permitiu. Já sentia a ausência do filho Sipreto, envolvido na missão católica em Guimarães, e não suportaria ver outro filho partir. Apesar da insistência do tio, prevaleceu a vontade materna. O sonho militar ficou para trás, mas a lembrança daquele momento permanece viva em sua memória.
Sua dedicação à comunidade também o levou à política. Foi candidato a vereador durante o segundo mandato de De Jesus, de quem era homem de confiança, assim como de Carmem Martins, casal este que ele sempre teve admiração e respeito. Embora nunca tenha conquistado um cargo eletivo, jamais deixou de servir à população. Continuou ajudando amigos, familiares e vizinhos, participando de ações comunitárias e incentivando o esporte local.
Em 1987, acompanhado da esposa e dos filhos, mudou-se para o centro da cidade. Era o início de uma nova fase, mas sem jamais abandonar suas raízes, suas amizades e o amor pela terra onde construiu sua história.
A trajetória de Domingos Martins Nunes é a história de um homem que venceu pela simplicidade, pela honestidade e pelo trabalho. Um homem que plantou na terra, ensinou pelo exemplo, construiu amizades verdadeiras, formou uma grande família e ajudou a escrever importantes páginas da história de Canaranas.
Mais do que um jogador, um líder comunitário ou um pai de família, Duro tornou-se um símbolo de perseverança e dedicação. Sua história permanece viva não apenas nas lembranças daqueles que caminharam ao seu lado, mas também nas gerações que vieram depois e que continuam colhendo os frutos de seu legado.
E assim, entre os campos de futebol, os roçados, as canoas, as amizades e os laços familiares, segue a memória de Domingos Martins Nunes: um homem simples, mas dono de uma vida extraordinária.

