Certa vez, resolvi viajar para São Luís, capital do Maranhão, acompanhado de um dos Correia.
Eu precisava de um tempo. Não exatamente das pessoas, mas da rotina. Queria afastar um pouco os pensamentos, descansar a cabeça, respirar outros ares e experimentar a sensação de estar longe de tudo aquilo que, por tantos anos, fez parte da minha vida.
Pensei que alguns meses distante seriam suficientes para reorganizar as ideias.
Aluguei uma casa no bairro São Francisco.
Quando cheguei, coloquei as malas no quarto, abri as janelas e fiquei alguns minutos olhando a rua.
Era uma cidade grande.
Movimentada.
Diferente.
Pensei:
— Aqui ninguém me conhece.
Talvez fosse exatamente disso que eu precisava.
Mas a vida, às vezes, gosta de nos mostrar que distância e ausência são coisas diferentes.
A vizinha de um lado era dos Amorim.
A outra, dos Ferreira.
Saí para caminhar e encontrei Costa, Melo e Castro.
Na padaria, uma dos Sousa atendia, enquanto Silva e Lima conversavam alegremente. Comprei os pães das mãos de um dos Andrade.
Fiquei parado por alguns segundos.
Não era possível.
Eu tinha saído de Peri-Mirim, mas parecia que Peri-Mirim havia decidido sair comigo.
Naquele momento, achei graça.
No fundo, pensei que fossem apenas coincidências.
Mas as coincidências continuaram.
Na feira, encontrei um dos Nunes vendendo farinha de Santana e um dos Lopes vendendo piaba. Mais adiante, Pinheiro, Pinto e Nogueira faziam suas compras.
No supermercado, surgiram outros conhecidos: Souza, Santos, França, Botão, Almeida, Correia, Cordeiro, Leite, Diniz e Ribeiro.
Depois vieram Abreu e Bahury, sentados numa praça.
No telefone, uma conterrânea dos Duailibe e Bordalo pedindo orientação sobre serviços da Equatorial.
No WhatsApp, uma mensagem de um amigo dos Inocentes.
E, na porta de casa, ainda encontrei Oliveira, Boas, França e Nunes, cantando toadas de Carlos Pique e Santiago.
Mais tarde, alguns dos Alves, Carreira e Martins passaram de carro, acenando e buzinando.
Naquele instante, já não achei tanta graça.
Fiquei em silêncio.
Porque percebi que aquilo não era apenas uma sequência de coincidências.
Era uma lembrança.
Uma lembrança de que existem lugares dos quais podemos sair, mas que nunca deixam de morar dentro de nós.
Foi então que comecei a compreender uma coisa.
Durante muito tempo, pensamos que casa é o lugar onde moramos.
Talvez não seja.
Casa também pode ser o lugar onde alguém conhece nosso nome.
Onde sabem quem é nossa mãe, nosso pai, nossos irmãos e nossos amigos.
Onde uma pessoa pode nos encontrar na rua e perguntar:
— E aí, como está o pessoal?
Casa é onde uma conversa começa sem precisar de apresentação.
Onde um sobrenome não é apenas um sobrenome, mas uma história.
Onde uma família lembra outra.
Onde uma lembrança puxa outra.
E, quando percebemos, estamos novamente diante de tudo aquilo que pensávamos ter deixado para trás.
São Luís era grande.
Muito maior do que Peri-Mirim.
Mas, naquele momento, descobri que tamanho não é medido apenas em quilômetros.
Uma cidade pode ser enorme e, ainda assim, não conseguir ocupar o espaço que uma pequena cidade ocupa dentro da memória de alguém.
Peri-Mirim talvez seja pequena no mapa.
Mas dentro de quem nasceu, cresceu ou construiu sua história ali, ela pode ser imensa.
Naquela viagem, descobri também que sentimos saudade de coisas que nem sabíamos que amávamos.
Sentimos falta de uma conversa na calçada.
De encontrar alguém conhecido no caminho.
Do jeito particular que as pessoas chamam umas às outras.
Daquela pergunta aparentemente simples:
— Tu conheces fulano?
Sentimos falta da feira.
Da farinha de Santana.
Da piaba.
Das toadas.
Das histórias repetidas tantas vezes que já sabemos o final, mas continuamos ouvindo porque o importante nunca foi descobrir o que aconteceu.
Era estar ali.
Junto.
Pertencendo.
Talvez seja isso que chamamos de identidade.
Não é apenas saber de onde viemos.
É reconhecer aquilo que permanece em nós mesmo quando estamos longe.
Depois de alguns dias em São Luís, parei de tentar fugir de Peri-Mirim.
Comecei a enxergá-la de outra maneira.
Percebi que aquelas pessoas que encontrei não eram obstáculos para o meu descanso.
Eram pontes.
Pontes entre o lugar onde eu estava e o lugar de onde eu vinha.
Cada sobrenome trazia uma lembrança.
Cada rosto conhecido carregava uma história.
Cada encontro me devolvia um pequeno pedaço de casa.
E então compreendi que talvez eu não tivesse viajado para esquecer Peri-Mirim.
Talvez eu tivesse viajado justamente para perceber o quanto ela fazia parte de mim.
Hoje, quando penso naquela viagem, lembro de uma coisa muito simples: ninguém consegue descansar de suas próprias raízes.
Podemos nos afastar.
Podemos mudar de cidade.
Podemos conhecer outros lugares, outras pessoas e outros caminhos.
Mas aquilo que nos formou continua caminhando conosco.
Peri-Mirim não ficou para trás naquela viagem.
Foi comigo.
Foi na mala.
Foi na memória.
Foi nos encontros.
Foi nas conversas.
Foi nos sobrenomes.
Foi na música.
Foi na saudade.
E talvez seja esse o verdadeiro sentido de pertencer a um lugar: não precisar estar nele para senti-lo.
No fim, descobri que não era Peri-Mirim que eu precisava deixar por alguns meses.
Era apenas a pressa.
A rotina.
O cansaço.
Porque Peri-Mirim, essa eu nunca conseguiria deixar.
E talvez nem quisesse.
Porque existem lugares que a gente visita.
Existem lugares onde a gente mora.
E existem lugares que, mesmo depois de muitos quilômetros de distância, continuam morando dentro da gente.
Peri-Mirim é um desses lugares.
Imagem da Internet
História baseada no tempo que fui morar em Pinheiro, cursando História pela UFMA. Porém criei a história em São Luís com um personagem que queria dar um tempo da sua terra natal, de suas atribuições e funções, querendo descansar da rotina.
