RELATÓRIO HISTÓRICO DO CONJUNTO MUSICAL: OS PANTAS

A história do conjunto musical Os Pantas confunde-se com a própria história da cultura popular de Peri-Mirim e de grande parte da Baixada Maranhense. Durante mais de quatro décadas, o grupo levou música, alegria e animação às comunidades rurais e urbanas da região, tornando-se uma das mais importantes referências da música popular no interior maranhense. Em uma época em que ainda não existiam equipamentos eletrônicos de sonorização, radiolas ou grandes estruturas de entretenimento, eram os conjuntos musicais que garantiam a animação das festas populares, desempenhando papel fundamental na preservação das tradições culturais e no fortalecimento da convivência comunitária.
A origem do grupo remonta aproximadamente ao ano de 1962, no município de Peri-Mirim, quando o senhor **Boa Ventura Leite**, carinhosamente conhecido como Panta, começou a reunir amigos para tocar músicas durante encontros e pequenas festividades. Homem simples, alegre e apaixonado pela música, Panta confeccionava sua própria flauta de bambu, instrumento que dominava com habilidade, mesmo sem possuir formação musical ou conhecimento técnico sobre leitura de partituras. Seu talento era resultado da sensibilidade, da prática e do ouvido apurado, características muito comuns entre os músicos populares da época.
Com espírito agregador, Panta incentivava constantemente seus amigos a formarem um conjunto musical que pudesse animar as festas da região. Esse sonho começou a ganhar forma quando os irmãos Gregório e Albertino retornaram para Peri-Mirim após passarem uma temporada em São Luís. Durante o período em que viveram na capital maranhense, trabalharam em padarias e aproveitaram a oportunidade para aprender música e aperfeiçoar o domínio de instrumentos de sopro.
Albertino destacou-se como excelente executante de pistão, enquanto Gregório tornou-se reconhecido pela habilidade no saxofone alto e no saxofone tenor. A experiência adquirida por ambos foi essencial para elevar o nível musical do grupo, permitindo a execução de repertórios mais elaborados e de grande aceitação popular.
À medida que o conjunto conquistava reconhecimento, novos músicos passaram a integrar sua formação. Entre eles estavam Brígido, responsável pelo banjo; Mariano, que tocava a tradicional cabaça; e **Januário**, encarregado do pandeiro, instrumento indispensável para marcar o ritmo das apresentações. Com a evolução do grupo, Panta deixou a flauta de bambu e passou a tocar clarinete, enriquecendo ainda mais a sonoridade da banda.
Restava apenas preencher uma função considerada essencial na época: a bateria. Diferentemente das bandas atuais, nas quais o teclado desempenha grande parte da base harmônica, os conjuntos musicais daquele período dependiam da bateria para manter o ritmo e dar sustentação às apresentações. Foi então que surgiu Ademar, irmão mais novo de Albertino e Gregório. Com apenas quatorze anos de idade, ele assumiu a bateria e rapidamente demonstrou talento, tornando-se um dos pilares do conjunto durante décadas.
Com sua formação consolidada, Os Pantas passaram a percorrer intensamente toda a Baixada Maranhense. Em pouco tempo, tornaram-se presença obrigatória nas principais festas de Peri-Mirim, Bequimão, Alcântara e de diversos outros municípios da região. O grupo animava bailes, aniversários, casamentos, festas religiosas, festejos juninos, comemorações comunitárias e eventos políticos, sendo frequentemente contratado por lideranças locais e organizadores de grandes celebrações.
Naquele período, a música ao vivo representava o principal entretenimento das comunidades interioranas. As festas eram verdadeiros encontros sociais, reunindo famílias inteiras para celebrar, dançar e fortalecer os laços de amizade. Nesse contexto, a presença dos Pantas era sinônimo de animação garantida. O público aguardava com entusiasmo o início das apresentações, embaladas principalmente pelos sons marcantes dos instrumentos de sopro, característica que se tornou a principal identidade musical do conjunto.
O repertório era composto predominantemente por baiões, xotes, arrasta-pés, sambas, boleros e outros ritmos populares brasileiros que dominavam os salões de dança nas décadas de 1960, 1970 e 1980. As apresentações frequentemente atravessavam a madrugada, reunindo dezenas e, por vezes, centenas de pessoas que dançavam até o amanhecer. Em uma época anterior à popularização das radiolas, os conjuntos musicais eram os grandes responsáveis pela animação dos eventos, e os Pantas ocupavam posição de destaque nesse cenário.
Entre as inúmeras participações do grupo, merece destaque sua atuação durante o tradicional Festejo do Divino Espírito Santo, no município de Alcântara. Durante dezessete anos consecutivos, os Pantas participaram das festividades religiosas, acompanhando solenidades como o levantamento do mastro, procissões e celebrações populares. A presença constante nesse importante evento religioso demonstra o prestígio conquistado pelo conjunto e sua contribuição para a preservação das manifestações culturais do Maranhão.
Além das festas religiosas, os músicos também abrilhantavam os tradicionais festejos juninos promovidos em Peri-Mirim, incluindo as quadrilhas organizadas por Galanchinho, que marcaram época no município. O conjunto também participou de inúmeros eventos políticos, animando comícios realizados pelo ex-prefeito Doutor Vilásio, prática bastante comum naquele período, quando a música desempenhava papel importante na mobilização popular.
A influência dos Pantas ultrapassou os limites de Peri-Mirim. O grupo teve participação decisiva na formação de um conjunto musical em Bequimão, compartilhando conhecimentos, incentivando novos músicos e contribuindo diretamente para o fortalecimento da cultura musical na região. Entre os pioneiros desse novo grupo destacavam-se Antônio “Sapo Boi”, no pistão; Joca “Mucura”, no saxofone; Oton, no saxofone tenor; e Lucas, no banjo. O apoio recebido dos Pantas permitiu que esses músicos desenvolvessem seu próprio trabalho artístico e ampliassem a tradição dos conjuntos musicais na Baixada Maranhense.
Com o passar dos anos, profundas transformações ocorreram no cenário musical regional. A partir das décadas de 1980 e 1990, começaram a surgir as primeiras radiolas de grande porte, inicialmente dedicadas à música brega, estilo que conquistou enorme popularidade no Maranhão. Artistas como Evaldo Braga tornaram-se referências desse período, enquanto empresários como Nestárbulo, Carne Seca e Luís Anízio introduziram modernos equipamentos de som e iluminação na região. As festas passaram a contar com luzes negras, grandes caixas acústicas e repertórios gravados, alterando significativamente os hábitos culturais da população.
Esse processo provocou uma redução gradual do espaço ocupado pelos conjuntos musicais tradicionais, que passaram a enfrentar dificuldades para competir com as novas tecnologias de entretenimento. Mesmo diante desse cenário, os Pantas permaneceram ativos durante vários anos, mantendo viva a tradição da música ao vivo e resistindo às mudanças impostas pelo mercado.
No ano de 1999, Ademar decidiu deixar o grupo para dedicar-se integralmente à sua missão religiosa. Sua saída representou uma perda significativa para o conjunto, que permaneceu em atividade por mais alguns anos, até encerrar definitivamente sua trajetória em 2003, concluindo um ciclo de mais de quarenta anos dedicados à cultura popular maranhense.
Durante toda sua existência, os integrantes dos Pantas enfrentaram longas jornadas de viagem para cumprir seus compromissos musicais. Era comum permanecerem até quinze dias percorrendo povoados da Baixada Maranhense, utilizando os meios de transporte disponíveis à época para levar música às comunidades mais distantes. Essas viagens fortaleceram amizades, aproximaram culturas e consolidaram o grupo como patrimônio afetivo de diversas gerações.
Entre os grandes admiradores do conjunto destacou-se Alcides Sodré, reconhecido incentivador da cultura local. Admirador declarado dos Pantas, realizou importantes gestos de reconhecimento ao trabalho do grupo, incluindo a doação de instrumentos musicais novos para todos os integrantes e a promoção de encontros de confraternização e homenagens aos músicos. Essas iniciativas demonstram o respeito e o carinho conquistados pelo conjunto junto à comunidade.
O legado deixado pelos Pantas ultrapassa o aspecto musical. O grupo contribuiu para preservar tradições, fortalecer a identidade cultural da Baixada Maranhense, incentivar novos músicos e promover momentos inesquecíveis de lazer e convivência social. Em uma época marcada pela simplicidade das relações comunitárias, suas apresentações representavam verdadeiros acontecimentos culturais, reunindo famílias inteiras em torno da música, da dança e da celebração da vida.
Ainda hoje, a história dos Pantas permanece viva na memória dos moradores de Peri-Mirim e dos municípios vizinhos. Suas músicas, suas apresentações e a alegria transmitida por seus integrantes continuam sendo lembradas com carinho por aqueles que tiveram o privilégio de vivenciar uma época em que os salões eram embalados pelo som dos instrumentos de sopro, do banjo, da bateria e da cabaça. Mais do que um conjunto musical, os Pantas constituem um importante patrimônio da memória cultural da Baixada Maranhense, cuja trajetória merece ser preservada e transmitida às futuras gerações como exemplo da riqueza artística e das tradições populares do Maranhão.