AS MÁSCARAS

Autora Eni Amorim

Surgiram nas primeiras comunidades humanas (a. C).

Representavam fenômenos ou atividades;

Um meio de comunicação;

Usadas em rituais religiosos;

Manifestações populares;

Sobre diferentes formatos e funções;

Está presente:

No cinema, no teatro, na música, na dança;

Nas suas múltiplas facetas,

Alegraram bailes, festas, carnavais;

Desencadearam fantasias sexuais;

Na queima das bruxas;

Corte de cabeças de condenados;

Nos campos de concentrações;

Protegiam o rosto dos carrascos.

Nas indústrias, protegem os trabalhadores;

Nos hospitais, protegem médicos e enfermeiros;

E todos que salvam vidas.

Já foram de ferro, madeira, folhas, argila, couro, papel, resina, gesso e cera;

As mais famosas foram:

Bobo da corte, Arlequim, Pulcinella, Pierrot e Colombina.

Atualmente com a pandemia do novo coronavírus,

Elas se tornaram adereços indispensáveis,

De segurança em todo o mundo,

Para a proteção e combate ao contágio,

De um vírus que mata!

As industrializadas possuem um padrão,

Para as classes de riscos específicos;

Podem ser de silicone, pvc, com válvula de exalação ou sem válvula;

De tecido, ou outro material, ideal que tenha FPA – Fator de Proteção Atribuído (relacionado com bom estado, corretamente ajustado no rosto e usado todo o tempo em que o usuário permanece na área de risco).

E assim,

Além de proteger,

Elas vão mascarando:

Faces conhecidas,

Semblantes,

Sorrisos,

Alegrias…

Só não conseguem mascarar:

Depressões,

Ansiedades,

Tensões,

Medos,

Lágrimas.

A Dor,

Da perda de tantos amores,

Tantos sonhos,

Tantos projetos,

Que jazem nas saudades e nas lembranças,

Eternizadas nos corações.

No Terreiro da Bisa Bebel

Autora Eni Amorim

No terreiro da Bisa Bebel havia uma infinidade de animais domésticos: galos, galinhas, frangos, frangas, patos e paturis.

A bisa nunca tinha ouvido falar em logística, mas na sua sabedoria popular já utilizava na administração do seu sitio princípios de logística.

O seu galinheiro era bem dividido: as partes das galinhas adultas onde eram colocados os ninhos para postura e chocagem de ovos; a parte dos frangotes, a dos pintos. Todas as acomodações tinham vasilhas com água e poleiros para os animais.

 À parte ficava o chiqueiro dos patos e paturis adultos e o compartimento dos patos e paturis pequenos.

Tibúrcio era o galo do terreiro, ele era garboso, possuía o peito carnudo e avermelhado, cristas e esporas e uma barbela pendurada no queixo. Sem dúvidas nenhuma possuía o posto mais alto na hierarquia do galinheiro; ele gostava de procurar sempre os locais mais altos para cantar seu cocoricó estridente de forma a mostrar quem mandava naquele espaço.

Tibúrcio arrancava suspiros das galinhas e franguinhas do galinheiro, estas quando o viam desfilar garbosamente pelo terreiro diziam entre suspiros: – Nossa que galo bonitão e gostoso! E reviravam os minúsculos olhinhos.

As franguinhas coitadinhas, não podiam “arrastar as asas” para os frangos porque o galo logo chegava ciscando o terreiro chamando o frangote pra briga, quando o franguinho dava uma de valente logo provava dos afiados esporões do Tibúrcio.

As galinhas poedeiras quando se ajeitavam no ninho para botar ovos o ilustríssimo galo se punha a andar pra lá e pra cá em um nervosismo animal; Tão logo que a galinha põe o ovo, ela abre o bico anunciando que botou o ovo, por outro lado, o galo esgoela-se numa cantoria como se anunciando: – Meu filho nasceu!

As donas galinhas, como todas as mães são seres incríveis, são carinhosas, amorosas e fazem tudo pelos filhotes, elas não fazem discriminações, cuidam de qualquer filhote órfão como nos mostram filmes e documentários.

Especialistas dizem que as galinhas são as melhores mães do reino animal. Quando ela sai com sua ninhada para passear, veste a sua melhor armadura e aí do predador que se atrever a mexer com seus filhotes. Muito cuidadosa quando encontra um marisco chama a ninhada para degustar e é uma alegria só ver o piar dos pintinhos mariscando. As galinhas falam com seus filhotes em tons suaves ainda no ovo, e estes podem ouvi-las a partir de sua casca.

Os animais possuem sua linguagem própria; além do famoso “cacarejar” as galinhas também gritam e alertam seus companheiros do perigo de predadores nas proximidades.

Os patos e paturis são animais bem alegres, são também precoces, seus filhotes são capazes de andar, deixando o ninho algumas horas depois de serem chocados. A mamãe pata leva seus filhotes para nadar e é uma bela  paisagem ver os patinhos nadando atrás de sua mamãe pata.

Os patos machos ficam com suas penas mais exuberantes  no período de reprodução também são mais silenciosos do que as patas. (Acho que faz parte do lado feminino ser mais barulhento, risos)

Como todo amor de mãe a mamãe pata faz tudo para proteger os seus filhotes. Quando faz o seu ninho, puxa do seu próprio peito as mais macias penas para alcochoar o ninho e aquecer melhor os ovos.

Enquanto os machos são mais silenciosos, as fêmeas são capazes de fazer diferentes barulhos e são bem mais vocais. É muito comum quando elas avistam pessoas no terreiro darem um sonoro quak, quak, quak…

Com todos os cuidados com seus animais domésticos a bisa Bebel quando tinha que sacrificar um dos seus animais para fazer comida sofria um pouco devido o apego ao animal. Todos os dias no final da tarde na hora de agasalhá-los ela ia conferir se tudo estava nos conformes e ficava triste quando percebia que seus animais tinham sido atacados por raposas, maracajás, teiús, gambás ou outros predadores.

Era agradável ver quando a bisavó saia no terreiro, os animais faziam a maior festa pra ela em cantos, piados ou até beliscões típicos da linguagem do mundo animal dessa maneira podemos dizer que os animais interagem e aprendem com o mundo e tem muito a ensinar os humanos.

Peri-Mirim, 03 de abril de 2021.

Fotos atuais do terreiro do Sítio Boa Vista de Ana Cléres, sobrinha-neta de Isabel Nunes.

Peri-Mirim, mirim…

Autora Giselia Martins

Peri-Mirim, mirim…

Tão pequenina,
Tão aconchegante
Tão admirada
Entre tantas outras,
A mais amada!

Minha doce cidade
De encantos mil
Tão pequena
Tão sublime
Neste imenso Brasil!

Oh! minha cidade
Quero viver com alegria
Ao lembrar de minha infância
Vivo um momento de nostalgia.

As memórias que tenho de ti
São lembranças de meus quintais
Brincando com meus irmãos
Tempos que não voltam mais…

Peri-Mirim, meu lugar querido
Não te troco por outros, jamais…
Terra de meus amigos
De meus avós e de meus pais.

Quanto orgulho tenho de ti
Te carrego no meu coração
Cidade mais que hospitaleira
A mais bela do Maranhão.

Peri-Mirim, 22/03/2019

João Helder

Autora Adelaide Mendes

Patrona da Cadeira nº 39 da Academia de Letras, Ciências e Artes Perimiriense (ALCAP). Padre João Helder era Missionário do Sagrado Coração (MSC). Nasceu na Holanda em 14/08/1930. Chegou ao Brasil em 1960. Padre Helder, um ícone na formação religiosa de Peri-Mirim.

De 1980 a 1986 Trabalhou na Paróquia de são Matias em Alcântara juntamente com outro padre também Holandês,  João José os quais tinham um grande comprometimento social no inicio da implantação da Base Espacial em Alcântara, estando ao lado das comunidades Quilombolas e outros movimentos e entidades que se posicionaram contra a maneira como a base espacial fora instalado no Município, havendo muitos confrontos e enfrentamentos nas questões sociais. Fortaleceu o Sindicato Rural de Alcântara o qual deve muito sua organização e até apoio financeiro, as formações da palavra de Deus e a formação social ao padre Helder.

Por intermédio da estrutura da paróquia, que deu total apoio ao Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do Município de Alcântara, segundo pessoas entrevistadas que conviveram com o padre Helder, a igreja católica e o sindicato eram contra o sistema de remoção dos moradores quilombolas  de seu local de moradia com promessas de vida digna e até hoje nada vezes nada; a luta dos movimentos sociais era para que a remoção dos moradores acontecesse em condições humanas de desenvolvimento. Há trinta e cinco anos, quando os primeiros moradores das comunidades foram indenizados, pegaram o dinheiro e logo gastaram e hoje alguns desses moradores habitam as palafitas do bairro da Liberdade/Camboa, a vida não mudou, ou seja, mudou pra pior, isso é fato social.

Em Peri-Mirim atuou de 1988 a 2003 dando continuidade aos projetos de evangelização e pastorais, formação catequética, bíblica, reorganização das comunidades Eclesiais de Base (CEB’s), reuniões mensais, estudo bíblico, Liturgia da palavra e cânticos. Implantou o dízimo na paróquia, contribuiu para a vinda das Irmãs Clarissas Franciscanas para o município, deu apoio  às Santas Missões Populares, ECC – Encontro de Casais com Cristo, reestruturou a Festa da Fraternidade celebrada com todas as CEB’s. Promoveu reformas na igreja e salão paroquial na sede, além de reformas e construção de igrejas nas comunidades. Trouxe para o município Escola Sindical assessorado pela CPT- Comissão Pastoral da Terra (que atua nas questões agrárias) e Cáritas, cuja missão é trabalhar para construir um mundo melhor especialmente para os pobre e oprimidos.

Padre Helder de maneira discreta e acolhedora atendia a todos os paroquianos que vinham ao seu encontro; dispensava uma atenção especial às pessoas socialmente mais vulneráveis.

Em 2005 foi transferido para Fortaleza, atualmente residia na comunidade de São João Batista do Tatuape.

Regularmente visitava a Diocese de Pinheiro, considerado grande benfeitor da referida diocese, ajudando na manutenção da Fazenda do Amor Misericordioso.

Na Diocese de Pinheiro exerceu os seguintes ofícios pastorais:

1980 – 1986: Paróquia São Matias em Alcântara-MA;

1988 – 2003: Pároco da Paróquia São Sebastião em Peri-Mirim-MA;

1988 – 2000: Coordenador da CPT (Comissão Pastoral da Terra) e da Cáritas na Diocese de Pinheiro;

2003 – 2004: Assistência nas paróquias de Peri-Mirim e Pinheiro.

Padre Helder deixou-nos um legado imperecível, tanto pela formação bíblica quanto ao apoio aos movimentos sociais.

Às gerações que não conheceram o padre Helder, este deixou em Alcântara uma sólida formação cristã, casada com a formação bíblica, assim como contribuiu para uma verdadeira consciência política e cidadã.

No alto dos seus 90  anos deixou de habitar no corpo material, celebrando, portanto sua páscoa definitiva em 26.02.2021

Entrevista com Daniel das Chagas Mendes.

As Sextas-Feiras dos Camelôs

Autor Diêgo Nunes

Como dizem os mais velhos, “dia de muito, véspera de nada”. O velho provérbio parece ter sido escrito para traduzir a vida dos camelôs que, há mais de três décadas, transformam as sextas-feiras de Peri-Mirim em um verdadeiro mercado a céu aberto. Enquanto muitos ainda despertam para mais um dia comum, eles já carregam nas costas uma semana inteira de estrada, quilômetros percorridos e histórias acumuladas.

Muito antes do sol nascer na sexta-feira, eles já conhecem o caminho de cor. A viagem, na verdade, começou dias antes. No domingo, deixam São João Batista e seguem um roteiro que se repete semana após semana: Matinha, Cajari, Pedro do Rosário, São Vicente Ferrer, Cajapió e, finalmente, Peri-Mirim. Cada amanhecer acontece em uma cidade diferente. Cada praça recebe suas barracas. Cada pôr do sol encerra mais um dia de trabalho e inicia uma nova jornada.

São vidas marcadas pelo movimento. Não existe endereço fixo durante a semana, apenas estradas, caminhonetes carregadas de mercadorias, refeições feitas às pressas e noites em pousadas simples, casas de amigos ou, quando não há alternativa, debaixo da própria barraca que servirá de loja na manhã seguinte.

Na Rua Rio Branco, o cenário já faz parte da paisagem perimiriense. Uma a uma, cerca de doze barracas ganham forma. Tecidos coloridos, roupas para todas as idades, calçados, utensílios domésticos, cosméticos, verduras e pequenos objetos do cotidiano transformam a rua em um espaço de encontros, conversas e oportunidades. Mais do que produtos, cada banca expõe uma história de esforço e perseverança.

Quem observa apenas o movimento das vendas talvez não imagine o caminho percorrido até ali. Há mercadorias compradas com sacrifício, viagens feitas sob chuva intensa, pneus furados na estrada, noites sem dormir e dias em que o lucro mal cobre as despesas. Existem cidades onde foram recebidos com hospitalidade, mas também outras onde enfrentaram restrições, taxas inesperadas e até a proibição de trabalhar. Mesmo assim, nunca deixaram de seguir viagem.

A vida do camelô ensina que desistir quase nunca é uma opção.

Entre uma venda e outra, surgem os laços que só o tempo é capaz de construir. Clientes deixam de ser apenas compradores e tornam-se amigos. Há quem reserve o café da manhã para aquele vendedor que visita a cidade há anos. Outros oferecem um prato de comida, um copo de água gelada ou um lugar para descansar. Pequenos gestos que, para quem vive na estrada, possuem um valor impossível de medir.

Dona Ana conhece bem essa realidade. Há quinze anos percorre o mesmo caminho entre São Vicente Ferrer e Peri-Mirim. Enquanto organiza cuidadosamente suas mercadorias, fala com carinho da cidade que aprendeu a considerar quase como sua.

“Aqui somos bem recebidos. Vendemos bem, fizemos amizades e sempre encontramos pessoas que nos acolhem. Se não fosse minha família, talvez já tivesse escolhido morar em Peri-Mirim.”

Ao lado dela está Dona Celina, natural de Matinha e uma das pioneiras dessa rota comercial. Sua fala revela a simplicidade de quem aprendeu a conviver com as incertezas do comércio ambulante.

“Tem dia que vende muito. Tem dia que quase não vende nada. Mas ficar em casa não resolve. A gente vem porque acredita que alguma coisa sempre pode acontecer.”

Essas palavras resumem uma filosofia de vida construída na prática. Para quem vive do comércio itinerante, esperança também é ferramenta de trabalho.

As sextas-feiras de Peri-Mirim são feitas desses encontros. Enquanto alguns procuram uma roupa nova, outros apenas passam para conversar. Há quem venha comprar, quem venha observar e quem apareça apenas para rever velhos conhecidos. O comércio se mistura às histórias, às lembranças e às risadas. Em poucas horas, a Rua Rio Branco transforma-se em um espaço onde economia, convivência e tradição caminham lado a lado.

Pouca gente percebe que esses comerciantes fazem parte da história da cidade. Há mais de trinta anos, suas barracas anunciam a chegada da sexta-feira. Muitas crianças que acompanhavam os pais para fazer compras hoje retornam levando os próprios filhos. O que antes era apenas um dia de feira tornou-se uma tradição, um costume que atravessou gerações.

Ao final da tarde, quando as últimas vendas são concluídas, começa novamente o ritual da partida. As mercadorias voltam para os veículos, as barracas são desmontadas e a rua recupera sua tranquilidade. Mas, para eles, não existe descanso prolongado. Em poucos dias, a estrada chamará outra vez.

E assim seguem os camelôs: vencendo distâncias, enfrentando o calor, a chuva, o cansaço e as incertezas. Cada barraca montada representa resistência. Cada cliente conquistado simboliza confiança. Cada viagem é um testemunho da coragem de homens e mulheres que encontraram no trabalho ambulante um meio honesto de sustentar suas famílias.

Peri-Mirim, por sua vez, aprendeu a recebê-los não apenas como vendedores, mas como parte de sua própria identidade. Porque, mais do que mercadorias, eles trazem histórias. Histórias de luta, de perseverança e de esperança. Histórias que, a cada sexta-feira, continuam sendo escritas sobre o asfalto da Rua Rio Branco, lembrando a todos que o trabalho digno sempre encontra um caminho, mesmo quando esse caminho começa muito antes do amanhecer.

Imagem da Internet

Sete de setembro no Grupo Escolar Carneiro de Freitas

Na década de 1970, o dia 07 de setembro era dia de desfile obrigatório no Grupo Escolar “Carneiro de Freitas” em Peri-Mirim/MA, lembro-me da Professora de Ciências, Graça Diniz (in memoriam) que organizava e treinava os pelotões diferenciados, ensaiava acrobacias, danças e performances criativas.

Eu nunca soube onde aquela mulher esquia e brava aprendia essas técnicas. Quando eu cursava a 3.ª série, fui escolhida para sair no Pelotão do “Moinho”, treinei, sabia toda a coreografia. Mas tinha que comprar um tecido quadriculado em vermelho e branco.

Fui tirar as medidas da roupa com tia Rosa – esposa de Constantino -, que morava na sede. Na época eu não sabia o motivo, mas mamãe não comprou o tecido. No dia do desfile, como era obrigatório, tive que ir desfilar de farda.

Ainda bem que eu era a menor da turma e ficava no final do pelotão, assim ninguém podia me ver. Ouvia Graça Diniz gritar: “cadê a Ana Creusa??!!!, cadê Ana Creusa??!!”. Não sei se ela me viu, mas o desfile começou e eu podia ver a turma do “Moinho” com suas evoluções.

Senti o gosto amargo da decepção, na mesma hora compreendi que minha mãe não pôde comprar o tecido, pois a tia Rosa não cobraria pelo feitio da roupa.

Voltei para casa, não falei nada para minha mãe, não falei da minha decepção, nada! A professora discreta, que já tinha sido minha professora na 2ª série, também nunca falou sobre o assunto comigo, acho que ela também compreendeu que eu não tinha roupa para sair no pelotão especial.

Graça Diniz voltou a ser minha professora no Ginásio, na matéria Ciências. Quando eu a via, sempre lembrava do fato. Mas eu tinha uma forma de chamar a atenção daquela nobre professora: era estudar mais! Na 5ª série ginasial apenas três alunos passaram direto, sem fazer prova final, eu estava entre eles, com Gilberto Câmara e Delma Ribeiro.

Memórias de Ana Creusa

Peri-Mirim: Serra Velho

Autora: Eni Amorim

Não se pode afirmar como quando vieram para o Brasil as folias portuguesas da serração do velho. O que se sabe é que as crônicas coloniais do começo do século XVIII já falavam delas com entusiasmo (Mário Ferreira de Medeiros).

Eram festas de rua do povaléu (ralé). Segundo o site meussertões.com.br essa estranha brincadeira se espalhou pelo Brasil principalmente nas regiões norte e nordeste a partir do século XVIII. Constava no rito os motejos contra o velho, sua tortura e morte por meio da serração.

Em conversas com algumas pessoas da comunidade entre elas minha mãe (lnácia Amorim), ela me contou que na comunidade de Santana e Serra (povoado extinto), os moradores cultivavam a prática de realizar o folguedo.

Segundo os entrevistados essa brincadeira acontecia no período da quaresma: um grupo de pessoas da comunidade, na maioria jovens alegres que gostavam de se divertir e aprontar presepadas se reuniam e com alguns objetos, tambor, serra, tamborim, cuíca, latas, panelas o “diacho a quatro”, escolhiam sua vítima, de preferência um velho ranzinza da comunidade para ser “serrado”. Um dos critérios usados era que a vítima tinha que ser avô (ó), ou como dizemos: “estar no crepúsculo da vida”.

Então, à luz da meia-noite o grupo saía para fazer a serra na pessoa definida. Chegando na casa do dito cujo, chamavam o fulano de tal pelo nome, quando este respondia, diziam: -Levanta para vestir a camisa da verdade! Aí começava a zoeira, batiam nos tambores e latas, serravam gritavam, choravam como se o fulano de tal tivesse morrido e assim a brincadeira seguia noite a dentro nas casas das vítimas definidas.

Alguns moradores já suspeitando que podiam ser serrados não caiam na pegadinha, em contra partida, havia morador que entrava na brincadeira de bom humor enquanto que havia outros que não aceitava a brincadeira, ficavam bravos, xingavam os organizadores da brincadeira, enquanto quem estava de fora se divertia.

Nesse contexto do folguedo do “serra-velho”, mamãe me contou uma das presepadas que aconteceu com um morador da comunidade de Santana.

O grupo de jovens da sua época, isso na década de 50, escolheu como vítima o Sr. Bertoldo, este era irmão de meu bisavô, Domingos do Rosário. Alguém dedurou o grupo contando antecipadamente para este que ele seria serrado, então o mesmo começou a guardar mijo no pinico para surpreender o grupo.

No dia definido para a serra, este subiu nu em um cajueiro que ficava na frente da sua casa munido com o mijo dormido em um recipiente. Como a noite estava escura não dava para vê-lo.

Quando o grupo chegou, na calada da noite, o líder do grupo o chamou mudando sua voz para não ser reconhecido:
– Eh Bertoldo, eh Bertoldo… não obtendo resposta prosseguiu:
– Acorda para vestir a camisa da verdade! E começou a barulheira, um serrava um pedaço de madeira, batiam nas panelas, latas e tambores.

Foi quando o Sr. Bertoldo jogou o mijo dormido em cima do grupo e pulou no meio deles peladinho e foi aquele alvoroço, eles sorriram muito da presepadas e foram para casa banhar pra tirar o cheiro de mijo.

Pessoas entrevistadas:
Inácia Amorim; Terezinha Nunes Pereira; Mara Nunes; Nani Sebastiana e Maria Rosa Gomes.

Nota da Autora: Aos poucos a brincadeira foi se extinguindo, já na década de 60 e com a migração de muitos jovens para estudar nas cidades não mais se viu a brincadeira vindo a se extinguir por completo.

O Cangaceiro Tito Silva

Autor Manoel Braga

Tito Silva era filho de Wenceslau Silva, que por sua vez era filho de João Silva. Todos eles nasceram na localidade Ilha do Veado pertencente ao hoje município de Peri-Mirim. Contam que Wenceslau passou 1 ano dormindo no cemitério do Souza na Malhada dos Pretos após ter cometido um assassinato.

O crime se deu por causa de uma brincadeira muito comum tempos atrás na Baixada. Era chamada de Serra. Consistia em fazer um ritual fúnebre de uma pessoa idosa que por ventura existisse na comunidade. Era um pouco macabro. Era feita a leitura de um suposto testamento do idoso em que suas coisas eram deixadas para os vivos.

Esse ritual era realizado tarde da noite acompanhado de muita zoada. Todo velho morria de medo de ser serrado. Tinha um instrumento confeccionado especialmente para essas ocasiões chamado de corrupião. Constituía-se de um pedaço de madeira onde era enfiado um fio que a pessoa segurava e rolava sobre a cabeça o que causava um barulho ensurdecedor. Muitas pessoas participavam da brincadeira.

Tinha uns que batiam em lata. Outros imitavam animais. Principalmente o acauã (rasga mortalha). Nesse ritual, o bode era muito comum também. Este geralmente se roçava na parede da casa feita de pindoba para criar o clima de despedida do idoso.

Uma determinada noite a “canalha” resolveu que era chegado o dia de rocar seu João Silva que já estava bem velho. Estava no ponto de ser serrado. Era tarde da noite, estava na hora de começar o ritual. Fizeram zoada. Leram o testamento. Distribuíram as coisas de seu João. Teve um que subiu em uma árvore e começou a imitar o rasga mortalha.

Seu Wenceslau, pai de Tito Silva, muito brabo pegou uma espingarda, esperou o rasga mortalha piar e largou chumbo. Foi só um tiro. O cabra caiu durinho. Acabou a brincadeira. A brincadeira acabou mesmo. Não fizeram mais esse ritual. Mandaram prender seu Wenceslau. Ele para não ser encontrado durante o dia se escondia no mato. À noite vinha dormir no cemitério onde sabia que não iam procurar por ele. E assim ele escapou muito tempo da prisão.

O primeiro prefeito de Bequimão, que nesse tempo ainda chamado de Santo Antônio e Almas foi o capitão José Mariano Gomes de Castro. Era um grande proprietário de terras, fazendeiro, comerciante e delegado. Certa ocasião o prefeito que, também, era o delegado mandou prender Tito Silva acusado de roubo de gado.

Durante a prisão, o denunciado foi muito torturado. Para completar, o delegado trouxe a mulher dele e na frente de Tito foi humilhada, teve suas vestes rasgadas e sofreu abuso sexual. Tito ficou injuriado. Prometeu que se vingaria.

Tito foi enviado para cumprir sentença na fazenda do senhor Antonio Sousa que era grande proprietário de terras na Tijuca. Tito ficou por lá um certo tempo, mas sempre esperando uma oportunidade para fugir. Durante esse tempo ele apresentou um bom comportamento. Ficou de confiança do fazendeiro.

Até que um dia o senhor Antonio chegou de viagem, apeou do cavalo e o entregou para Tito lavar e dá de comer. Era tudo que Tito tanto esperava. Tito aproveitou a oportunidade e deu no pé. Foi embora para o sertão.

Depois de um certo tempo ele voltou, já com um bando formado. Chegou à propriedade de seu Antonio num dia em que ele tinha encomendado uma missa. Tito com seu bando acabaram a festa. Fizeram zoada, deu tiro para cima e em todas as direções.

Dizem que o padre ficou tão assustado que se jogou do segundo pavimento da casa, só não morreu porque caiu dentro de um depósito de melaço. A mãe de seu Antonio, uma idosa, quase morre de susto. Contam que uma bala perdida pegou em uma garota que ficou se contorcendo de dor. Tito vendo aquilo pegou o seu punhal e enfiou na criança acabando com a sua agonia.

Depois dessa confusão toda que ele causou na casa do senhor Antonio Sousa, ele rumou para Bequimão para consumar sua vingança. Chegando lá, ele localizou o Coronel José de Castro. Ele o prendeu. Torturou o quanto pode. Furou os olhos e o castrou. Por último cortou as orelhas que levou para mostrar para a mulher como prova da sua vingança.

No final ele perguntou ao Coronel: – sabe o que vim fazer? – Eu vim te matar. O coronel era homem duro disse para Tito: – homem se mata, não se maltrata. Nisso um dos homens de Tito, achando que o vexame do coronel já tinha sido muito deu um tiro e acabou com o sofrimento do velho.

Depois de consumada a vingança, os homens de Tito se dispersaram. Tito acabou sendo preso. Foi enviado para cumprir pena em uma fazenda do governador do estado que na época era Magalhães de Almeida e que tinha como vice Marcelino Machado. Dizem que os dois mantinham uma relação homo afetiva. Tito estava bem por lá. Bom comportamento e tudo.

Um certo dia, para azar de Tito ele viu os dois se amando. Tito se escondeu. Mas eles ficaram com a dúvida se Tito tinha olhado ou não. Eles tinham medo que a relação deles viesse a público acabando com a trajetória política deles.

Um dia, eles chamaram Tito e perguntaram o que ele tinha visto. Ele disse que não tinha visto nada. Mas eles não acreditaram. Eles botaram Tito para cavar um poço. Quando já estava com uma certa fundura eles perguntaram ao Tito: – tu sabe o que tu tá fazendo e ele respondeu: – estou cavando a minha sepultura. Então, deram-lhe um tiro e o enterraram. E assim acabou a trajetória de vida violenta que Tito levou.

Nota do Autor: Parte desta história deve ser tratada como lenda, pois, baseou-se em ditos dos mais antigos. Sabe-se que pessoas como Tito Silva têm em torno de si muitos mistérios.


Sobre a foto destacada:  Na legenda da foto do livro Adagas & Punhais do irmão @antonioguimaraes355 está: “Cartão fotográfico emitido pelo retratista Joaquim Moura Quinou. Foto em gelatina e prata. Retrato do cangaceiro Tito Silva na cadeia pública de São Luís-MA, pouco antes de ser transferido para o Aprendizado Agrícola Christiano Cruz”. Acervo Antonio Guimarães. Querem programa sobre ele? Eu já queria um filme! Sua história é espetacular. Saiam da bolha, o assunto cangaço é muito maior que o ciclo LAMPIÔNICO.

PERI-MIRIM: Engenho e Poço de Pedras da Fazenda São José

Autora Ataniêta Martins

Nossas histórias são lembradas quando alguém se dedica a escrever ou contar sobre elas.

A Fazenda São José, localizada no Povoado Tapera em Peri-Mirim ainda exibe peças de um engenho antigo que funcionou naquele local que, segundo relatos, era bastante lucrativo aos fazendeiros que ali residiam.

Atualmente ainda podemos encontrar por lá, peças que foram deixadas para trás, fora do padrão das que são usadas hoje nos engenhos, o que denota que são peças de um engenho antigo. Pode-se observar que o local onde funcionava o engenho, foi escolhido por ser calmo e sereno, onde podiam trabalhar tranquilos e onde podiam ouvir os cantos dos pássaros.

As árvores antigas são testemunhas de quanto tempo essas peças do engenho estão ali enterradas. Embaixo das plantas entrelaçadas umas às outras, exibindo grossas e profundas raízes, que indica que estão ali por muitos e muitos anos e em estado de completo abandono.

Vendo aquelas peças, fico a imaginar se nossa Peri-Mirim tivesse um museu para expor essas peças, tanto a História seria preservada, como mais pessoas poderiam conhecer esse material de grande valor. Seria interessante fazer a catalogação para a nossa e as próximas gerações saberem que no nosso município existiram moinhos que funcionavam com mão de obra escrava.

Também pude verificar que na fazenda São José existe um poço, chamando de poço de pedras, construído por mãos talentosas e mágicas dos escravos que viveram naquela época; feito para saciar a sede do gado e para o trabalho no moinho. O interessante é que as pedras foram cortadas ou encontradas de um só tamanho e lá colocadas, tudo articulado com peculiar beleza.

Atualmente, o poço encontra-se entupido até certa profundidade, certamente por falta de cuidados. Com a abolição da escravatura e consequente fechamento do engenho, o poço passou a ser usado na pecuária, pois os futuros moradores dedicaram-se à criação de gado bovino.

Outro fato importantíssimo é que existem árvores centenárias, mangueiras e, em destaque, um bacurizeiro com mais de 130 anos.

Nota dos Editores: O livro Curiosidades Históricas de Peri-Mirim, de autoria de Francisco Viegas, destaca que houve a existência de 11 (onze) engenhos antigos em Peri-Mirim: 1) Rio da Prata; 2) Santa Filomena; 3) Engenheiro Queimado; 4) Engenho Tijuca; 5) Teresópolis; 6) Santa Cruz; 7) Santana; 8) São Luís Bacelar; 9) Itaquipé; 10) Palestina e 11) Engenho Santa Estela. Com a descoberta do Engenho São José, são em número de 12 (doze) os engenhos antigos de Peri-Mirim.

Peças do Engenho

Peças do Engenho

Poço de Pedras

Poço de Pedras

PERI-MIRIM: Fazenda São José – Século XIX

Autora Ataniêta Martins

Essa fazenda tem uma grande história para ser explorada e contada.

A Fazenda São José fica localizada no Povoado Tapera, município de Peri-Mirim. Construída no século XIX, por mãos talentosas e mágicas de escravos que viveram naquela época. A fazenda encontra-se intacta atualmente, sem nenhuma modificação, tudo feito com materiais bem resistentes.

No centro da cozinha, encontra-se até hoje um poço, com águas cristalinas que serve para saciar a sede dos moradores daquele lugar.

Na época de sua construção, a fazenda era iluminada por candeeiros que funcionavam a querosene, depois a motor e atualmente com energia elétrica.

Várias famílias residiram na fazenda São José: incialmente morou a família do coronel Joaquim Sousa (fazendeiro rico, prestativo com sua comunidade); Dr. Viera Fontes que, em relatos do senhor Antônio Brígido Ribeiro, o Dr. Vierira Fontes, era desembargador, homem mais rico da redondeza, tinha uma caneta era de ouro, era respeitado por quem o conhecia, foi um dos primeiro a trazer helicópteros ao município.

Posteriormente residiu o coronel Altiberto Francisco Câmara, que possuía o título honorário de Soldado da Borracha, por ter sido dono de seringal em Porto Velho – Rondônia. Um de seus filhos, Ney Câmara, relatou-me que ele, era homem de caráter, valorizava a família sendo o bem mais precioso, deixou saudades à família e à comunidade. Tive o prazer de conhecer sua amável esposa, a Srª Maria do Rosário Câmara, com a qual passava horas conversando, devido meu amor pelos estudos das raízes históricas do seu município.

A Fazenda também pertenceu ao senhor José Domingues Pinheiro, dono de muitas fazendas na Baixada, das quais conservara os detalhes históricos.

Atualmente a fazenda tem como proprietário, o Sr. Sérgio, que é advogado, conselheiro da Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional do Maranhão. O Dr. Sérgio tem por meta restaurar a fazenda e garantir a preservação da fauna e flora, com intuito de deixar para as futuras gerações um património Histórico-Ambiental preservado.

Peri-Mirim, 13 de maio de 2020. PS: A fazenda já passou por reformas.